Contos Canônicos

De Relas
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O mundo de Relas acreditava estar em equilíbrio quando, na verdade, apenas havia parado de se mover.

No coração das florestas antigas, acima de raízes encantadas e pedras que lembravam mais árvores do que rocha, erguia-se a Alta Cidadela Aelcarion. Ali, os elfos governavam não pela força, mas pela permanência. O passado era repetido com tanto cuidado que se tornara lei. Mudança era vista como falha; pressa, como fraqueza.

Foi nesse lugar imóvel que nasceram os gêmeos.

Entre os elfos, em ocasiões formais, registros solenes e pactos antigos, ela era chamada Aelyndraen Aelcarion. O nome carregava peso, linhagem e expectativa. Mas fora dos salões da Cidadela, fora dos rituais e da rigidez aristocrática, quase ninguém a chamava assim.

No mundo real, ela era apenas Ailyn.

Seu irmão gêmeo, Thalenyr, era mais silencioso. Onde Ailyn questionava, ele observava. Onde ela via possibilidades, ele via caminhos. Desde cedo, ambos perceberam aquilo que o Conselho se recusava a admitir: o mundo além das muralhas estava mudando — e a Alta Cidadela fingia não ouvir.

Quando rumores chegaram do Leste, falando de humanos que surgiam, cresciam, erravam e reconstruíam tudo em poucas gerações, os anciãos sorriram com desdém. Vidas curtas. Ambição caótica. Nada digno de atenção.

Ailyn não acreditou nisso. Thalenyr tampouco.

Eles partiram.

A viagem ao Leste os levou para fora dos mapas antigos, até encontrarem um vilarejo jovem demais para constar nos registros élficos: Ironthorn. Construído de madeira escura e ferro bruto, o lugar existia por necessidade, não por estética.

Ali governava Nader Ironthorn, um homem sem títulos antigos, mas com a rara habilidade de reconhecer valor real. Ele recebeu os elfos com cautela — e respeito.

Naquele mesmo ano, sob um céu de outono pesado, nasceu seu filho.

Brom Ironthorn.

Enquanto Ailyn ensinava magia como ferramenta viva — sem dogmas, sem hierarquia — e Thalenyr treinava caçadores e guardas a ler o terreno, o vento e a intenção do inimigo, Brom crescia observando.

Tentou a magia. Ela não o quis. Tentou o combate direto. Não o definiu.

Foi a floresta que o moldou. E o silêncio.

Quinze invernos passaram. Ironthorn cresceu. Os gêmeos mudaram. Mas algo começou a ranger sob o tecido do mundo — sonhos errados, ecos onde não deveria haver resposta.

Quando partiram novamente, levaram consigo a sensação de que estavam deixando algo incompleto para trás.

O primeiro rasgo real veio em combate.

Criaturas que não pertenciam àquele plano atravessaram fissuras mal mantidas. O ar se dobrou como tecido velho. E, no meio do caos, surgiram duas figuras diminutas — pequenas demais para impor presença, antigas demais para serem ignoradas.

Dizzy, ligada à forma, à matéria e à forja. Buffy, ligada ao fluxo da mana e à evocação.

Elas falaram de portais construídos sobre erros antigos. De planos desalinhados. De um mundo sustentado mais por hábito do que por estabilidade.

Quando Ailyn e Thalenyr retornaram à Alta Cidadela Aelcarion, levaram essas verdades consigo.

Nada mudou.

Os salões ainda ecoavam discursos vazios. O Conselho ainda discutia precedência enquanto o mundo começava a sangrar nas bordas. Quando os gêmeos insistiram, foram recebidos com condescendência — e desprezo.

“Elfos-libélula”, disseram. Criaturas inquietas. Que voam rápido demais. Que não sabem permanecer.

Quando os portais começaram a colapsar de verdade e os demônios atravessaram em número impossível de negar, a Alta Cidadela escolheu o silêncio.

Ailyn escolheu romper. Thalenyr escolheu agir.

Eles abandonaram a Casa Aelcarion levando consigo elfos que já haviam compreendido que eternidade não era sinônimo de sobrevivência.

No exílio, encontraram uma câmara fora do plano comum. Um lugar onde a matéria não obedecia totalmente às leis do mundo. Ali, sob a orientação de Dizzy, Thalenyr iniciou a forja de algo que jamais deveria ser comum.

Apenas quatro conjuntos de Ferrões nasceram daquele lugar.

Um — o Ferrão de Thalenyr — tornou-se lenda ainda em vida, extensão direta de seu movimento e de sua vontade. Os outros três foram criados para seus aprendizes. Nada mais. Nada menos.

Enquanto isso, Ailyn e Buffy estruturaram a Escola de Evocação. Não havia títulos, apenas responsabilidade. O poder vinha sempre acompanhado de custo.

O insulto tornou-se nome.

Nasceu o Clã Dragonfly.

No Leste, Brom Ironthorn assumiu quando Nader adoeceu. Não por direito, mas por necessidade. Formou os Vigias da Orla Verde, uniu humanos e anões, protegeu fronteiras que o resto do mundo fingia não ver.

Quando marchou para o Oeste, já não era apenas um arqueiro. Era um comandante.

O reencontro aconteceu sob montanhas carregadas de nuvens. Não houve discursos longos. Apenas a certeza silenciosa de que o mundo havia mudado — e eles com ele.

Ailyn retornou a Ironthorn. Uniu-se a Brom. Dali nasceram seus filhos.

Aerendil, que sentia a mana como um eco constante. Lyssara, que aprendeu a se mover observando correntes antes mesmo de empunhar lâminas.

O Oeste, porém, não esperou.

As Terras Estéreis eram um lugar onde o mundo havia desistido. Pedra quebradiça. Céu opaco. Corrupção impregnada no ar. Cada passo custava sangue. Cada avanço exigia sacrifício.

Anões tombaram. Humanos caíram. Elfos desapareceram.

Mas avançaram.

No Último Portal, o combate durou dias. O chão rachou. O céu gritou. Quando ficou claro que não havia outra saída, Ailyn fez o impensável.

Ela evocou.

Não como feitiço. Como fim.

A Evocação Final colapsou o portal. O Abismo respondeu com fúria. Metade da comitiva foi tragada. Nomes desapareceram. Histórias terminaram sem corpo.

Quando o silêncio caiu, Ailyn e Buffy não estavam mais ali.

A vitória existia. Mas ninguém a celebrou.

Depois da guerra, Thalenyr percorreu campos de batalha esquecidos. Não atrás de glória — mas atrás de algo roubado dos mortos. Criaturas que vasculhavam corpos, recolhendo símbolos e lembranças, haviam levado o pergaminho da Evocação Final sem jamais compreender seu valor. Ele passou por muitas mãos. Todas morreram sem saber o que carregavam.

Thalenyr o recuperou.

Escondeu-o.

E chamou Aerendil em segredo.

Entregou-lhe apenas um mapa, avisando que ainda continuaria procurando sua irmã gêmea. Ailyn não estava morta. Não enquanto ele respirasse. Esposa de Brom. Mãe de Aerendil e Lyssara. E alguém que ele não abandonaria.

Pouco depois, Thalenyr e Dizzy desapareceram.

Sem rastros. Sem despedidas.

O tempo seguiu.

Os Ferrões de Vaelion, um dos aprendizes caídos, passaram para Lyssara. O Estilo Dragonfly sobreviveu em seus passos, em seu silêncio, em sua precisão.

Aerendil evocou. Lyssara lutou.

E assim, mesmo com o Abismo ainda ecoando nomes esquecidos, a Primeira Era não morreu.

Ela se fragmentou. E continuou.

Essa é a história como o mundo a viveu. O resto… ainda está por vir.